quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O encontro clínico: o médico aos olhos de quem o procura


Bertrand de Jouvenel teria dito a Emmanuel Berl: “Vês, estou contente de conversar contigo enquanto bebemos água da torneira em um pote de mostarda. Para muitas pessoas, o progresso seria beber água mineral em um copo de cristal. Para mim, é ver-te mais vezes”.
Alfred Sauvy

 

É com esta citação que o colega Luis Roberto Londres inicia o capítulo O encontro clínico, de seu livro Iátrica – a arte clínica: ensaios sobre a teoria da prática médica. Li este livro em 1998, no meu penúltimo ano de Medicina, e decidi revisitá-lo. Este momento tão significativo, que é o do encontro do paciente com seu médico, sempre me interessou. A complexidade das possibilidades interativas – que necessariamente precisa ser substituída por um tipo de interação específica, baseada na cooperação e na confiança – é um desafio para qualquer profissional que exerça a prática clínica.

Depois de uma boa campanha de marketing médico, um consultório bem localizado, agradável de se estar, com uma secretária atenciosa, horários disponíveis e um preço justo, ainda há que se passar pelo teste de fogo: a relação médico-paciente. Como diz Londres: “é através do encontro clínico que o doente – ou o suposto doente – ou o que deseja apenas se assegurar de sua sanidade toma contato com a atividade médica como tal, isto é, compartilha suas condições com outra pessoa, possuidora de conhecimentos específicos e ordenados, e dela espera uma opinião (ou certeza) e uma ação de acordo com seus objetivos”.

É nesse momento, em que nos mostramos seguros, empáticos e disponíveis – ou, então, justamente o contrário destas características acolhedoras – que começamos a definir o sucesso de nossa empreitada enquanto praticantes da Medicina. Enquanto podemos conseguir de um paciente que se mobilize para a ação através do temor que o mesmo possui de perder a vida, algum órgão ou função, não conseguimos fazê-lo de forma sustentada e cooperativa se não desenvolvermos com ele um laço especial, pautado pela confiança.

Sem este laço, ao primeiro sinal de segurança, quando perceber (ou imaginar) que sua vida está a salvo, o mesmo tenderá a abandonar o tratamento, ou torná-lo irregular, passando a obedecer os impulsos e aconselhamentos daqueles que estão mais próximos do seu círculo de confiança: amigos, familiares, vizinhos… Como sabemos, tal atitude é temerária e claramente prejudicial em patologias crônicas (como diabetes mellitus, hipertensão e dislipidemias), nas quais a sintomatologia pode permanecer oculta por vários anos, causando danos que só serão perceptíveis mais tarde.

Quando um paciente vem nos procurar, ele sempre o faz pois está, de uma forma ou de outra, fragilizado, visualizando na figura do médico um instrumento para sair de sua condição de ser humano frágil e falível. Negligenciar esta condição e este sentimento, bem como tornar secundária a importância do médico enquanto direcionador do processo de cura, alívio ou conforto do paciente, é algo eticamente inaceitável. Quando, inadvertidamente, responsabilizamos o paciente intelectualmente limitado ou, já idoso,  atrapalhado com suas dezenas de medicações, pela falha do tratamento, o fazemos para tentar nos redimir de nossa própria responsabilidade.

Se é bem verdade que “não se pode ajudar a quem não quer ajuda”, existem várias formas de ajudar quem nos pede socorro mas, por vários motivos que cabem a nós investigar, não consegue-se ajudar. Não é só ao paciente que precisamos pedir paciência enquanto realizamos nossos testes e utilizamos nossas ferramentas diagnósticas. Precisamos nós mesmos exercer o dom da paciência e repetir nossas instruções acerca das medidas que julgamos aptas para que o doente atinja os objetivos que o fizeram nos procurar.
Ainda, voltando a uma citação de um poema de Antonio Machado feita em Iátrica: “El ojo que ves no es ojo porque tú loveas; es ojo porque te ve”. E referindo-me à necessidade da relação de confiança, talvez possamos usar tal poema para dizer: “O médico que enxergas no espelho pela manhã não é médico porque assim o queres; é médico pois assim teu paciente te vê”.


por Rafael Reinehr


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